26 de março de 2009

Aurora de nossos dias.


Bom dia minha queria! Ela odiava quando a chamava de querida, preferia ser morta a facadas a ser chamada assim, não sei o motivo de tanta revolta com uma simples frase, mas a incomodava-a.

Nunca me importei com a situação, eu simplesmente evitava os incômodos, não gostava de ficar brigando e quando ela estava com aquela cara, era melhor eu nem começar com gracinhas.

Não naquela manha fria de agosto, acordei com vontade de provocar, sabe aqueles dias que vc não quer conhecer o mundo em que vive? Bem eu acordei num dia desses, muitos outros já tinha acordado com esta sensação, mas sempre relevava, para a sua infelicidade, naquela manha eu acordei disposto a tudo, disposto a matar com elevado grau de tortura ou disposto a amar como se nunca tivesse amado.

Esperava apenas pelo sinal dela me indicando o que queria que eu fizesse. Um olhar, uma fala, ou um gesto, era tudo o que esperava, queria uma fala ríspida, um gesto grosso, um olhar sutil, qualquer coisa que pudesse me provocar qualquer gasolina que incendiasse minha chama de ódio, vingança ou coisa do tipo.

Levantei da cama, fui até a cozinha preparar algo pra comer, fiz um café, bem forte, sem adoçar, da maneira que ela mais odiava. Nunca tomávamos café na cama, farelos de pão na cama? Nunca, nem em sonhos. Mancha de café na fronha? Seria morte na certa.

Coloquei a chaleira no fogo, com quatro colheres de pó já dentro da água, enquanto aquecia, peguei uma fatia de pão e coloquei na torradeira, assim faria mais farelos, o pão torrou, coloquei sobre o prato e passei um pouco de margarina que estava no pote sobre a mesa, não se lembrava de ter se esquecido de guardar na noite anterior, uma xícara estava ao seu lado, com restos de açúcar no fundo. A água ferveu, uma mistura de água e café saiu pela borda, enchi á até a borda e fui vagarosamente até o quarto.

Então coloquei o prato sobre o travesseiro, no canto uma xícara bem cheia, quase derramando, saindo fumaça  de tão quente, sentei de costas, não queria rir quando ela começar a reclamar.

Comi o pão, ofereci o ultimo pedaço e ela não falou nada, imaginei o quanto brava estaria, ria por dentro, achava que não agüentaria, mas me controlei, espalhei farelo por toda a minha borda da cama, quando peguei o café, algumas gotas escorreram pela borda caindo suavemente no lençol. Tomei um pequeno gole. É agora, ela vai falar algo, mas nada, comecei a estranhar o porquê de tanto descaso.

Coloquei o prato no chão com a xícara por cima, subi na cama novamente, e toquei de leve seu rosto, tão frio. Só então percebi que algo já tinha fugido de meu controle há muito tempo.


(imagem: Salvador Dali)

francoa

23 de março de 2009

Eu sou o pior cara


Não reclame, eu lhe disse primeiro
Eu sou a pior espécie de rapaz
Para você estar ao meu redor
Rasgue-me em partes, incluindo esse velho coração
Ele é a única coisa verdadeira em mim
E nunca me deixe sozinho.

Você não deveria ter furado comigo
Agora você confia demais em mim, você vê?
Pegue toda a sua dor, ela é sua de qualquer jeito
E  você coloca a culpa em mim
Você deixa se passar por outra
Em algum lugar fora de si
Eu deixei meu amor de lado
Agora isso é uma tragédia.

francoa

16 de março de 2009

outrubro

Nós demos uma volta naquela noite, mas não era o mesmo, talvez o álcool, talvez o cigarro, algo tinha mudado.

Brigamos no passeio, lá fora na chuva ela disse que me amava, mas ela tinha que ir embora, não suportava minha presença.

Pode gritar que não te escutarei, mas você jurou que nunca ia fugir.

Eu jurei que nunca a deixaria partir.

Me diga o que você quer saber
Não há motivos mais para morrer

Ela não era mais minha amiga, não mais que você.
Então vamos lá, na Velvet, temos uma história pra mudar, talvez se a dose fosse outra, e não houvesse outro em meu lugar.

francoa

2 de março de 2009

Sabes quem eu era?

E quando as portas realmente se fecharem, chamaras por aquele que menosprezou?

Terás coragem de me amar sabendo que não posso mais amar.

Se for o que você realmente queria, não teria mudado pra ti.

E agora que todo o verde se foi, só lenha da mata sobrou.

 

Meus dedos calejados não podem te acariciar.

Meu corpo é tão frio, mas ainda sei o que foi amar.

Não me esqueci do mundo só lágrimas sobrou.

Meu passado passou, e agora quem sou?

 

E se você não tivesse aparecido talvez eu fosse diferente.

Se seu amor fosse o bastante.

Você realmente me amou?

Mas o mundo mudou e toda a selva em árido se tornou.

 

E quem escreve cartas não sabe onde ela vai chegar.

Mas os papeis estão para ser escrito.

E o carbono em diamante se tornou.

Mas as fadas morrem e o sonho se acabou.

 

Garota jovem não sabe ler e ha muito mais do que simplória cor.

Linhas em cinza de um tom azul, num papel rosa.

Não tem mais valor para quem escreveu?

Veja o que meu mundo te tornou e saberá quem sou.

 

E se você fugisse quando te pedi.

Você não teria me deixado dizendo que não fui o suficiente.

Não terias tantos problemas em revelar a ti quem sou .

Mas a flor em espinhos se tornou.

 

Sempre acreditei em tuas promessas, não esquecer quem sou.

Mas sou muito mais do que você precisa e sabe quem sou.

Acreditava num mundo melhor que você não soube criar.

E não tinha vontade de ter.

Mas as rochas soltas estão, e serei eu agora o que melhor que sou?

 

Mas não tenho tempo para tristeza, meu mundo em chamas se tornou.

As águas em vinho se tornaram e crianças não chãs estão.

Os velhos choram a mocidade e o futuro que se foi.

Nas estradas de um empoeirado e batido chão.


francoa

11 de fevereiro de 2009

Bons Tempos

Bons tempos estes, em que sonhavamos com a aurora de nossos dias, sem ao menos esperar que ela chegasse.
Bons tempos estes, que um dia quando vagando pela rua, podíamos sonhar,
Bons tempos estes, que íamos de bar em bar fechando a noite e abrindo a madrugada em sonhos que nunca chegaram a acontecer.
Bons tempos estes, que não tínhamos dinheiro e nem por isso perdíamos uma festa, bons tempos estes, que entravamos em apartamentos de amigos dos amigos de uns amigos e logo logo eramos todos amigos.
Bons tempos estes, que se foram sem ao menos nos privar dos dias que chegaram, e nem por isso deixamos de sonhar.
Bons tempos estes, em que todas as garotas eram as mais lindas do mundo, e que tínhamos medo de ao menos ganhar um simples "oi".
Bons tempos estes em que vivemos.

francoa

28 de janeiro de 2009

Noite

Outro dia se passa e a sua vida ainda passa
a noite nem bem acabou e uma nova manhã chega
as marcas em seu mau dormido rosto encantava ela
era tão doce que chegava a doer, não podia acreditar no que se passára
era só uma noite mau dormida.

Seus braços a tornavam tão forte que podia ser soberana de sua vida
há muito tempo não se sentia tao bem, segura, e muito mais
se sentia confortável, como se não precisasse dormir
comida era para o corpo, mas seu coração...
este ja sassiado estava.

francoa

21 de janeiro de 2009

Passado

Certa noite, ele saiu de casa trajando seu melhor terno, não seria apenas uma simples noite.
Tudo estava mudando, o mundo, as bebidas, comidas e costumes, tudo, menos ele.
Não aceitava as novas idéias de seu mundo.

tudo era nada.

francoa

30 de outubro de 2008

A Lei da Atração !!!

Agora o que mais me atrai são os olhos, e sempre foi assim, bom, se sempre foi assim, então, porque começar este texto com "agora"?
O motivo é bem simples, ou até mesmo possa parecer estúpido, somente agora percebo que o que sempre me encantou foram os olhos. Nas propagandas mostravam seios, barrigas e bundas, e até acho muito sensual, mas não era nada daquilo que mais me encantava.
Adoro os olhos, são partes muito frágeis do nosso corpo, e ele como um todo pode ser trabalhado, musculação, botox e outras coisas.
Mas os olhos não! Somente uma lente pode ser colocada como disfarce.
Uma pequena pele encobrindo seu verdadeiro eu!!!!
Os olhos contém um mistério, são partes fundamentais de uma expressão...
Lembre-se daquele olhar, da garota na boate (ou do rapaz, como preferir), aquele que parece que te chama, e quando você responde ele some num piscar te provocando. Sim este é o olhar. Aquele que você a encontra, e ela joga seus olhos ao chão, te convidando para uma conversa, convidando-te para um simples “oi”, você atende ao pedido e eis que ela vai subindo seus olhos vagarosamente angustiando-te até ambos se fitarem.
Estes são os olhos que me encantam.

francoa

Tragédia

Disseram:
- Dê um passo adiante e já não estará mais no mesmo lugar.

Ele acatou.
Mas estava na beira do precipício...

Agora ele não está mais em lugar algum.



14 de outubro de 2008

Sobre seios, silicone e filosofia


Bem, a ordem não vai ser exatamente aquela anunciada pelo título. Inverto a ordem dos prazeres e começo com a filosofia, que é bem menos aconchegante que o peito feminino, mas que também pode render alguns deleites.

Há quem ignora a influência grega sobre a atual sociedade, mas ela existe, profundamente enraizada no nosso modo de conceber o mundo. Não vou entrar em pormenores, apenas darei um exemplo periférico: perceba o jeito como cada um de nós se refere às partes do próprio corpo. “Minha” mão, “meu” pé, “minha” barriga... Usamos pronomes possessivos, como se essas coisas fossem propriedades. Mas, oras?!, propriedade de quem? Afinal, “somos” um corpo, ou “temos” um corpo?

Facilmente podemos concluir, hoje, que somos esse corpo que sofre a dor e goza o prazer. Somos esse corpo belo ou feio que reflete no espelho. Sendo assim, se somos esse corpo, porque dizer que ele é “nosso”? Aqui que entram os gregos. Um grego em especial: o Platão. Ele estava preocupado em resolver um problema que afligia seus contemporâneos: como explicar a mudança das coisas e, ao mesmo tempo, justificar a possibilidade do conhecimento? Por um lado, a observação mostrava que o mundo e as coisas estavam constantemente se transformando (tudo flui... ninguém entra duas vezes no mesmo rio – disse Heráclito) e, por outro lado, se se considerar que as coisas realmente estão em constante mudança, como poderíamos falar com conhecimento sobre elas? Se esse fosse o caso o nosso saber sobre o mundo estaria sempre desatualizado, pois quando achamos que compreendemos algo, aquilo já não é mais!

Pode parecer uma discussão trivial, mas foi decisiva para os rumos da civilização ocidental. Foi esse dilema que instigou Platão a desenvolver o seu sistema filosófico, baseado em dois mundos: o mundo das coisas sensíveis e perecíveis – o mundo que se tranforma, se altera – e o mundo supra-sensível – o mundo das coisas constantes, que não mudam. O mundo sensível, como o nome sugere, é composto por coisas acessíveis aos sentidos; tudo o que podemos sentir, tocar, ver e etc. Já o mundo supra-sensível é composto por idéias, por conceitos, que são as matrizes de tudo o que existe no mundo sensível. Com essa simples distinção de mundos Platão conseguiu fornecer uma resposta satisfaria ao problema do conhecimento e da constante transformação das coisas: as coisas mudam, sim, concorda ele, mas isso não é relevante para o conhecimento, pois este abrange as idéias, os conceitos, que pertencem ao âmbito das coisas eternas, que não se transformam. O rio nunca é o mesmo, suas águas não se repetem e nem seu leito se conserva o mesmo, mas, mesmo assim, podemos conhecer o que é um rio, pois nosso conhecimento não se refere a um rio sensível que se transforma a cada instante, se refere ao conceito-rio, à idéia supra-sensível de rio. Essa idéia não muda nunca!

[continua]


marcelo doro

12 de outubro de 2008

Nostalgia dos tempos de carreira solo


Divagava eu sobre os prós e contras da vida de solteira e vice-versa e cheguei à uma conclusão: sem dúvida a vida dividida com alguém é infinitamente mais interessante. Ela pode ser monótona, pode-se brigar, divergir, mas isso depende da cada casal e de como a relação é conduzida.
No tempo que estava “à granel”, inconscientemente buscava uma companhia, alguém para aquecer meus pés, pois mesmo no verão eles ficam geladinhos. Não adianta o solteiro negar, porque no fundo ele quer uma pessoas para compartilhar seus momentos bons e ruins, precisa daquele tipo de companheirismo que os amigos não podem dar, tudo fica mais saboroso quando estamos apaixonados e nos dedicamos à pessoa amada. Mas, não dá para negar que a vida de solteiro possui seus atrativos: os amigos te convidam para todo e qualquer programa, pois tem certeza que tu irás aceitar e ainda, que não tens horário para chegar em casa, muito menos dar satisfações para ao outro (a).
Uma questão interessante: quando saímos acompanhados nos preocupamos se a pessoa está a apreciar o ambiente, se simpatiza com seus amigos/parentes (aquela tia chata) ou acha tudo entediante e quer ir logo para casa dormir. É uma nova forma de viver: é aprender a respeitar o espaço alheio e ceder, sempre ceder em troca da mais sincera felicidade. Aquela felicidade intensa, não uma pseudo-alegria passageira que uma noitada certamente te dará. É um sentimento de proteção, de entrega e confiança: poder acreditar e saber que alguém te espera.
A cerca do lado financeiro, o solteiro sempre gasta com “bobagens”, bebedeiras e investimento próprio. Sempre existe uma parte do enxuto orçamento que dá para adquirir aquele mimo para o ego. O enamorado pensa no conjunto e namoradas que adoram presentear, como eu, tem de se controlar para manter em ordem o tal orçamento e ouvir: “tu sabes que não gosto que gastes com presentes pra mim”. An? Como assim?! Na verdade, ele gosta. Sei que sim.
Este, é um assunto delicado, onde sempre teremos indivíduos com distintas opiniões. Cada um com bons argumentos mas, quando nos encontramos do outro lado da moeda, parece que constantemente temos razão, não é? A estalibidade e o conforto de estar nos braços da pessoa amada, não têm preço, bem como poder sair soltinha por aí também não. Voto no equilíbrio.
Qual o seu argumento?

Leomaris W.

10 de outubro de 2008

Chanson

"Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
A sombra uma paisagem
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa
Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra ao meu favor
Às vezes eu pressinto
E é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussura em meu ouvido
Só o que me interessa
A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa".

Labiata, Lenine.

Leomaris W.

9 de outubro de 2008

Muros e grades




Há tempos, penso em escrever sobre o individualismo e por conseqüência, o egoísmo. Mas percebi que também me torno uma pessoa individualista. Quem sabe, isso seja contagioso ou de tanto repetirmos certas atitudes, elas sejam calcificadas com o tempo e se torna perturbador identificar tais erros, quiçá, admiti-los e tentar consertá-los.
Passo por um momento de escolhas, decisões e medos, muitos medos. Mas não é um pouco de narcisismo de minha parte canalizar esses temores ao redor do meu umbigo? Como se apenas eu sofresse ou temesse fazer a escolha errada? Creio que muitos passem por momento nebulosos. Improvável que todos os dias sejam constantemente cinzas, apesar d´eu apreciar a cor, gosto da vida mais colorida.
Eu me pergunto isso toda hora, mas a resposta é sempre o silêncio.
Será que as pessoas se afastam uma das outras por serem individualistas? Por falta de tempo? Ou será por falta de paciência para ouvir o outro? Eu tento me esforçar, juro que tento. Quando gostamos de alguém, é preciso que exista dedicação e respeito, dois ítens imprescindíveis para qualquer relacionamento e por vezes, são deixados de lado, ignorados: ah, deixemos para depois, amanhã nos falamos, não tenho tempo para você.
Não se percebe que os sentimentos têm pressa, não há como programar: fica artificial, ensaiado e certamente não é isso que o coração clama. É com sutileza, bom senso e dedicação que devemos conduzir nossas relações. Quantos esforços em vão! De tanto arquitetar, os muros que nos separam dos outros estão mais altos, afinal, precisamos de proteção. Proteção do quê/de quem? Se trata de excesso de vaidade. Ninguém vai me dizer o que sentir pois demanda muita energia dar atenção ao outro mas, sendo otimista, é impossível ser feliz sozinho.

"Ela começou a crescer, parecia vir do nada. Ficou horas se arrumando e ajeitando suas pétalas... E é linda! Mas também orgulhosa, caprichosa e contraditória".


Leomaris W.

8 de outubro de 2008

Diferenças

Meninas provocam, mulheres seduzem.
Meninas mandam, mulheres comandam.
Meninas protestam, mulheres reivindicam.
Meninas são perigosas, mulheres também.

Mulheres são serenas, meninas agitadas.
Mulheres são constantes, meninas impulsivas.
Mulheres são doces, meninas picantes.
Mulheres são letais, meninas também.

Meninas nem sempre sabem o que querem, mulheres sim.
Meninas não conhecem limites, mulheres sim.
Meninas são complicadas, mulheres também.

Mulheres têm planos, meninas medos.
Mulheres têm afinco, meninas disposição.
Mulheres são mandonas, meninas também.

Meninas suscitam paixão, mulheres amor.
Meninas são alegres, mulheres descontraídas.
Meninas são livres, mulheres independentes.
Meninas nos fazem tremer, mulheres também.

Mulheres são livros, meninas são filmes.
Mulheres são romance, meninas aventura.
Mulheres são tradicionais, meninas da moda.
Mulheres são irresistíveis, meninas também.

Há meninas que muito cedo se tornam mulheres;
Há meninas que nunca se tornam mulheres;
E há mulheres que nunca deixam de ser, também, meninas.

[marcelo doro]

30 de setembro de 2008

O ovo e a galinha

Quem veio antes, o ovo ou a galinha? Este é, talvez, o mais velho paradoxo levantado pela “inteligência” humana. Se alguém chegou a pender o sono pensando na solução não se sabe, mas que era intrigante era. Hoje sabemos a resposta: o ovo veio antes. É que, segundo as teorias da biologia evolucionista, a galinha descende de espécies mais primitivas de vida réptil que, muito antes dela, já botavam ovos. Assim, devido a algumas pequenas e sucessivas mutações genéticas, acabou saindo de dentro de um ovo de dinossauro a primeira galinha. Ou quase isso, pois é de se supor que a galinha primitiva não era tão moderna quanto as que conhecemos. (Sei o que você está pensando: tivemos, sim, muita sorte de a galinha não descender diretamente do grande Tiranossauro Rex!).

Tudo estaria bem se essa resposta de fato resolvesse o paradoxo. Acontece que ela não faz isso. Essa resposta apenas troca o problema de lugar. Trata-se, agora, de saber se foi o dinossauro ou o ovo que apareceu primeiro. Claro que a ciência pode resolver mais esse impasse, mas não quero prosseguir por este caminho. É um caminho tortuoso demais, assim como são tortuosos todos os caminhos da ciência em busca da verdade. Sobre isso é que quero falar. Desconfio que toda essa complexidade seja, no fim das contas, o grande obstáculo para a aceitação da ciência. A ciência é complicada demais.

Não se deve a isso, será, a ainda elevada aceitação de Deus por parte das pessoas? Deus é um conceito simples, basta acreditar. E para quem acredita, assim como um graça, todas as respostas são aplainadas. A crença simplifica o mundo. Pergunte a um crente sobre o paradoxo do ovo e da galinha e ele responderá: Deus criou a galinha e a dotou da faculdade de por ovos; logo, primeiro veio a galinha e depois o ovo. Fácil assim.

As respostas da ciência são, geralmente, difíceis de entender. Suas verdades são complexas. E as pessoas não querem verdades complexas. Porque as pessoas esperam apenas duas coisas da verdade: primeiro, que esteja disponível e, depois, que seja simples.


* * *

Também tem uma resposta lógica: se o ovo em questão no paradoxo for um ovo de galinha, então, necessariamente a galinha veio antes. Porque não é possível existir um ovo “de” galinha sem que primeiro exista “a” galinha. Mas isso também é um tanto complicado...



marcelo doro

21 de setembro de 2008

Nalgum lugar

"Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio: no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto.

Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra, embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar. Me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre (tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa. Ou se quiseres me ver fechado, eu e minha vida nos fecharemos belamente, de repente. Assim como o coração desta flor imagina, a neve cuidadosamente descendo em toda a parte. Nada que eu possa perceber neste universo iguala o poder de tua intensa fragilidade: cuja textura compele-me com a cor de seus continentes, restituindo a morte e o sempre cada vez que respiras. Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre, só uma parte de mim compreende que a luz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas.

Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas".

E. E. Cummings.

Leomaris W.

17 de setembro de 2008

Eco de sentimentos




É uma ilusão achar que viver é indolor. Sempre sofremos por alguma coisa, pois não existe plenitude. A solidão bate à minha porta avisando-me que passaremos algumas temporadas juntas, e não adianta eu falar que ela não é bem vinda, pois de alguma forma, ela aloja-se num cantinho escuro e fica à espreita de um momento de sóbria embriaguez para tomar conta do que antes era felicidade.
Então, eu digo: bem vinda! E ouço sua respiração próxima, como se ela fosse outra pessoa, alguém que eu quisesse muito ter por perto, ao lado, dentro.
Penso: ela é o vento que me abraça, me provoca e me envolve com o acariciar de seu sopro. Seu amor é causa e efeito, completa meu coração. É ele quem me inspira, me deixa forte e as vezes, fraca, sensível e docemente deprimida. Impossível olhar o céu e não ver o brilho dos teus olhos e isso me faz bem. Não quero te decifrar. Mantenha o seu silêncio e guarde as suas palavras. Eu me contento em sentir a sua boca próxima da minha e é provável que eu nunca vá saber, pois tu nunca vais mostrar.
De todas as minhas incertezas e angústias, resta algo concreto: tu preenches o meu mundo, embora em alguns momentos, eu não me sinta conectada a ti... mas em outros tenho a certeza de nossa bela sintonia. Eu temo se, por ventura, um dia não eu consiga ser paciente, compreensiva ou uma boa ouvinte de palavras não ditas. Minhas justificativas nem sempre levam a uma solução, mas elas são plenas de boas intenções. Gosto da minha vida tranqüila e do silêncio, mas tu és a tempestade que eu preciso.



Leomaris W.

16 de setembro de 2008

Apocalipse (LHC)

Os estudiosos protestam, mas, no vocabulário popular, Apocalipse é sinônimo de “fim do mundo”. É comumente apresentado como a luta final de Deus contra os ímpios. Evidentemente, trata-se de uma profecia antiga, do tempo em que não existia a ciência tal como a conhecemos e as explicações e especulações mundanas eram sustentadas em bases místicas.

Ironicamente, hoje é a própria ciência que motiva especulações acerca de uma possível catástrofe planetária. Os experimentos com o acelerador de partículas Large Hedron Colider (Grande Colisor de Hádrons, LHC na sigla em inglês) vem causando grande alvoroço, vista a imprecisão acerca de seus resultados. Eu não entendo muito bem como as coisas funcionam nesse âmbito – o âmbito do infinitamente pequeno – e, ao que parece, os cientistas que comandam o empreendimento, apesar de saberem muito mais do que eu, também não sabem o suficiente. De fato, esperam que a realização do experimento com o LHC lhes revele algo de significativo. Ou seja, eles esperam que o experimento revele a natureza daquilo que estão ingenuamente manipulando. Essa ignorância de base que ronda o empreendimento tem motivado alguns medos. E não são um medos absolutamente descabidos.

Os mais pessimistas, ou, em outras palavras, os mais temerosos acreditam que o LCH pode criar um buraco negro com força suficiente para tragar toda a massa do nosso adorável e mal cuidado planeta. Os responsáveis pelo projeto despistam dizendo que a chance de acontecer uma tragédia nessas dimensões e muito, muito pequena. A probabilidade seria de uma em 50 milhões. Convenhamos, é difícil de acontecer. Opa!, essa não é também probabilidade de alguém acertar os números da loteria? Sim, acredite, a probabilidade de o mundo acabar em um experimento científico é a mesma que você acertar os números da loteria. E não fique aliviado por nunca ter ganho na loteria. Saiba que muita gente já ganhou. É difícil, mas acontece. (Eu fico pensando: será que as pessoas que já tiveram a estrondosa sorte de ganhar na loteria, sentem-se mais preocupadas, agora?).

No mais, tenho um pé atrás com esses cientistas. Eles são bons no que fazem. Sim, são muito bons. Mas, que coisa, nem os Hackers eles conseguem manter sob controle...





O pior de tudo, se o mundo nosso acabar, é que não vai sobrar ninguém para filosofar a respeito.


[marcelo doro]

9 de setembro de 2008

Deixando o Pago

"Alcei a perna no pingo, E saí sem rumo certo
Olhei o pampa deserto, E o céu fincado no chão,
Troquei as rédeas de mão, Mudei o pala de braço,
E vi a lua no espaço, Clareando todo o rincão.

E a trotezito no mais, Fui aumentando a distância,
Deixar o rancho da infância, Coberto pela neblina,
Nunca pensei que minha sina, Fosse andar longe do pago,
E trago na boca o amargo, Dum doce beijo de china.

Sempre gostei da morena, É a minha cor predileta,
Da carreira em cancha reta, Dum truco numa carona,
Dum churrasco de mamona, Na sombra do arvoredo,
Onde se oculta o segredo, Num teclado de cordeona.

Cruzo a última cancela, Do campo pro corredor,
E sinto um perfume de flor, Que brotou na primavera.
À noite, linda que era, Banhada pelo luar,
Tive ganas de chorar, Ao ver meu rancho tapera.

Como é linda a liberdade, Sobre o lombo do cavalo,
E ouvir o canto do galo, Anunciando a madrugada,
Dormir na beira da estrada, Num sono largo e sereno,
E ver que o mundo é pequeno, E que a vida não vale nada.

O pingo tranqueava largo, Na direção de um bolicho,
Onde se ouvia o cochicho, De uma cordeona acordada,
Era linda a madrugada, A estrela dÂ’alva saía,
No rastro das três marias, Na volta grande da estrada.

Era um baile, um casamento, Quem sabe algum batizado,
Eu não era convidado, Mas tava ali de cruzada,
Bolicho em beira de estrada, Sempre tem um índio vago,
Cachaça pra tomar um trago, Carpeta pra uma carteada.

Falam muito no destino, Até nem sei se acredito,
Eu fui criado solito, Mas sempre bem prevenido,
Índio do queixo torcido, Que se amansou na experiência,
Eu vou voltar pra querência, Lugar onde fui parido."

francoa

8 de setembro de 2008

A banalização da cultura


Há algum tempo, eu passava em frente à tv, quando uma canção chamou minha atenção. Tratava-se da Srta. Spektor: cantora e pianista russa radicada em New York. Para minha surpresa era minha música favorita tocando na novala das 9 (!). A partir disso, lembrei de outro episódio. Foi em 1995 (eu era uma fedelha), na Malhação que ouvi e vi pela primeira vez a Srta. Morissette. Amor à primeira vista, pois identifiquei-me com aquela guria cabeluda, grunge e que soltava os agudos mais agudos qu´eu jamais ouvira igual.
São duas situações semelhantes, mas que causaram sensações diferentes e fizeram-me refletir sobre um assunto: a (boa) cultura é para todos? Eu sempre tive uma opinião crítica a respeito, porque considero que nem todos que ouvem a Regina tocando como trilha sonora de casal de novela sabem da sua potencialidade e principalmente, a grande artista que é. No máximo, acham a canção "bonitinha" e colocam-na no seu mp3 para cantarolar o refrão depois.
Quando Alanis veio ao Brasil pela primeira vez, era pouco conhecida. Depois, retornou e apareceu novamente numa novela. Eis a questão! Será que para o artista vir para cá ele precisa necessariamente aparecer num veículo de comunicação como a Globo? Assim o povão terá conhecimento, logo, o artista terá "público" garantido em seu provável show.
Posso estar enganada a respeito ou no fundo, existe uma parcela de verdade neste argumento. De fato, penso que grande parte das pessoas não entendem a arte e aí entra uma outra questão peculiar que não abordarei agora mas é também de suma importância. Elas não compreendem porque os meios de comunicação e a mídia enfiam goela a baixo certos tipos de gostos musicais, cinematográficos e entreternimentos em geral. Tudo muito fácil de digerir, é verdade. Assim, os clássicos, as novidades interessantes, caem no esquecimento ou no não-conhecimento (?).
Não posso afirmar que, a Regina Spektor tornanado-se single na novela poderá vir ao Brasil, como tantos outros artistas que seguiram este rumo. Se para ela vir, a massa terá de escutá-la, que assim seja. Eu ficaria deveras feliz.

Leomaris W.